sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

um texto na superfície da caixa de suco


"são cinco da manhã e a lua já se foi", ela me disse bocejando. "e você devia começar um texto assim. vamos dormir."

e fomos dormir.

e comecei o texto no assento da janela, de costas para onde estou indo. corro olhos distraídos sobre a caixa de suco que coloquei no parapeito. se é que janela de metrô tem um, penso melhor. por baixo das tímidas gotas de suor que umedecem a tetra pack, leio 1l. e é "éli" em letra de mão. del Valle de pêssego. minto: del Valle Ma+s. néctar de pêssego. pêssegos esses de cento e quinze gramas. o que terá acontecido aos pêssegos que foram só até as cento e quatorze? ou aos que foram das cento e dezesseis para cima? meu olhos vão se fixando neste questionamento. e se perdendo do mundo. cento e dezesseis ideias fervilham no meu cérebro e transpiro até pelo braço, bem naquela dobra que representa a parte de dentro do cotovelo. lê-se em mim aquela atenção caricata dos artistas plásticos que fixam num modelo vivo olhos precisos. mantenho a pose.

finjo pra mim, e a quem mais se interesse, que sei desenhar. a pose casa perfeitamente com o bloco de notas numa mão e o lápis dividido entre a outra mão e a boca. uma daquelas frustrações de infância. até os doze anos eu sabia desenhar só de olhar uma coisa ou mesmo outro desenho. já tive pasta e tudo. guardo alguns até hoje. e nunca fui de desenhar gente. mas a caixa não era gente e eu me permiti essa regalia. desenhar não é como andar de bicicleta. a gente desaprende se pára. sinto uma ponta de tristeza por todas as coisas da infância que não são como andar de bicicleta.

sem adição de conservadores. isso mesmo, conservadores. e não conservantes. um suco subversivo da Coca-Cola Brasil. se eu tivesse que convencer alguém a comprá-lo, se eu tivesse que explicar o porquê o escolhi, eu acabaria dizendo que usei o critério foi-o-primeiro-que-vi-quando-abri-o-freezer-da-padaria. provavelmente o único de um litro. e eu tenho sede. muita sede. avalio meu argumento como sendo tão eficaz quanto qualquer outra informação estampada na caixa. não fez a menor diferença, vai por mim.

para abrir: destrave os trincos e afaste as portas. é o que diz o aviso na faixa amarela da porta de vidro que protege o embarque na estação Vila Matilde. protegeria, mas nunca a vi funcionando. foi a primeira de muitas que nunca foram instaladas nas demais estações. e sua inutilidade não está concentrada apenas nisso: a grande questão é que ninguém se mata no Vila Matilde. as pessoas começam a se matar do Tatuapé em diante. onde as demais portas de proteção foram estrategicamente não-colocadas. tenho certeza de que se matariam na linha amarela, mas lá todas as estações receberam as portas e todas elas estão em operação. e elas só se matam em dias úteis e em horários críticos. as pessoas, não as portas. mas hoje é domingo. não há suicídas no Patriarca ao meio-dia. não vou me matar. está decidido.

sempre levanto pra desembarcar assim que o trem deixa a plataforma da estação anterior à do meu destino. não é para não incomodar os outros usuários nem nada, é mais para não incomodar minha ansiedade. é uma feliz coincidência que nossas necessidades estejam tão naturalmente alinhadas. me equilibro diante da porta com o bloco de notas apoiado no suco. um pouco à esquerda, vejo um aviso com um daqueles bonecos inexpressivos e sem cor que tão fielmente reproduzem os usuários do metrô. ele está sentado em posição de lótus, no meio de um círculo cortado por uma faixa reprobatória. mais tarde tento sem sucesso reproduzir o desenho. não leio o aviso que o acompanha.

me perco na lembrança de uma manhã em que voltava com Jack de uma noitada no Bar Roxo e ele ainda alto me disse "veja, Bob: as pessoas não podem meditar no chão dos vagões. tenho quase certeza de que é esse o motivo pra estarem sempre tão mal humoradas ou se jogando nos trilhos no horário de pico!" isso e o fato de que as portas do Vila Matilde não funcionam. não digo nada, apenas sorrio. sorrio e penso no que o poeta-vagabundo-iluminado do Gary Snyder diria se soubesse que é proibido meditar num vagão, seja ele qual for. na certa ficaria maluco.

sinto falta do Jack.