"são cinco da manhã e a lua já se foi", ela me disse bocejando. "e você devia começar um texto assim. vamos dormir."
e fomos dormir.
e comecei o texto no assento da janela, de costas para onde estou indo. corro olhos distraídos sobre a caixa de suco que coloquei no parapeito. se é que janela de metrô tem um, penso melhor. por baixo das tímidas gotas de suor que umedecem a tetra pack, leio 1l. e é "éli" em letra de mão. del Valle de pêssego. minto: del Valle Ma+s. néctar de pêssego. pêssegos esses de cento e quinze gramas. o que terá acontecido aos pêssegos que foram só até as cento e quatorze? ou aos que foram das cento e dezesseis para cima? meu olhos vão se fixando neste questionamento. e se perdendo do mundo. cento e dezesseis ideias fervilham no meu cérebro e transpiro até pelo braço, bem naquela dobra que representa a parte de dentro do cotovelo. lê-se em mim aquela atenção caricata dos artistas plásticos que fixam num modelo vivo olhos precisos. mantenho a pose.
finjo pra mim, e a quem mais se interesse, que sei desenhar. a pose casa perfeitamente com o bloco de notas numa mão e o lápis dividido entre a outra mão e a boca. uma daquelas frustrações de infância. até os doze anos eu sabia desenhar só de olhar uma coisa ou mesmo outro desenho. já tive pasta e tudo. guardo alguns até hoje. e nunca fui de desenhar gente. mas a caixa não era gente e eu me permiti essa regalia. desenhar não é como andar de bicicleta. a gente desaprende se pára. sinto uma ponta de tristeza por todas as coisas da infância que não são como andar de bicicleta.
sem adição de conservadores. isso mesmo, conservadores. e não conservantes. um suco subversivo da Coca-Cola Brasil. se eu tivesse que convencer alguém a comprá-lo, se eu tivesse que explicar o porquê o escolhi, eu acabaria dizendo que usei o critério foi-o-primeiro-que-vi-quando-abri-o-freezer-da-padaria. provavelmente o único de um litro. e eu tenho sede. muita sede. avalio meu argumento como sendo tão eficaz quanto qualquer outra informação estampada na caixa. não fez a menor diferença, vai por mim.
para abrir: destrave os trincos e afaste as portas. é o que diz o aviso na faixa amarela da porta de vidro que protege o embarque na estação Vila Matilde. protegeria, mas nunca a vi funcionando. foi a primeira de muitas que nunca foram instaladas nas demais estações. e sua inutilidade não está concentrada apenas nisso: a grande questão é que ninguém se mata no Vila Matilde. as pessoas começam a se matar do Tatuapé em diante. onde as demais portas de proteção foram estrategicamente não-colocadas. tenho certeza de que se matariam na linha amarela, mas lá todas as estações receberam as portas e todas elas estão em operação. e elas só se matam em dias úteis e em horários críticos. as pessoas, não as portas. mas hoje é domingo. não há suicídas no Patriarca ao meio-dia. não vou me matar. está decidido.
sinto falta do Jack.