feriado da revolução constitucionalista
de 1932, dia de orgulho paulista - acabo de descobrir, olhando no Google. no
dia, saí de casa mal entendendo qual era desculpa da vez pra São Paulo parar.
estava dando aulas há pouco mais de um mês, apenas uma vez por semana. era
praticamente um desempregado. sem agenda. mal sabia que era terça.
George me chamou pra visitar o Portinari
no MASP. terça é dia de visitação gratuita.
- mesmo em feriados, George?
- mesmo em feriados, Bob.
cheguei no ponto de sempre da Imperador,
George e Eddie tomavam café da manhã na padaria suja da esquina, era quase
meio-dia. Jack estava atrasado, pra variar.
- aposto que aquele filho da puta ainda vai
querer fumar um baseado antes de pegarmos o ônibus. marquei com uma galera ao
meio-dia lá. eles já devem estar nos
esperando. ele que se foda, eu vou na frente!
Jack quis, mas não fumamos o baseado. eu
queria fumar também, estava pouco me fodendo para quem quer que fossem os
amigos de George que nos esperavam fora do
MASP. eu queria ver o Portinari e pra isso não havia mais necessidade de ter
pressa. ele me esperava lá dentro, bem acomodado. durante todo o percurso, eu
não desgrudei do celular. era como se não estivesse ali. um desses smartphones moderninhos que me permitia continuar
conversando com uma garotinha ruiva à
la Minduim até
debaixo d'água. e ela estava me falando sobre uma série de sonhos cheios de
tiros em cabeças, trens, velhos chorando, faxineiras, pessoas empacotadas
caindo do céu e continuando a andar normalmente quando atingiam o chão,
discussões, conspiração, alguém baleado no lugar de alguém, sem maquinista,
trem desgovernado. de vez em quando pegava uma coisa ou outra que George dizia
sobre um emprego que estava pensando em arranjar. ele estava desempregado.
tinha ido morar com Eddie não fazia muito tempo, com pouquíssimo tempo de
namoro, que começou imediatamente após um desses reencontros que a vida arma
pra nós. não no meu caso. nunca me armaram um reencontro ou mesmo um encontro,
que fosse bem sucedido. chegando na Consolação ou me desligava do smartphone moderninho ou George o
atiraria nos trilhos do metrô. eu me atiraria atrás. sentia que a garotinha precisava
de mim e eu precisava dela. precisava também do Portinari, só que pra isso, não
havia necessidade de ter pressa. já ela me era urgente. mesmo assim, bye babe.
fomos direto pra fila. Jack fumava um
cigarro e se manteve fora da linha – do mesmo jeito que tem feito a vida toda.
quando chegou nossa hora, tivemos que apressá-lo, mas não foi necessário apagar
o cigarro e guardar a bituca dessa vez. foi o tempo exato. foi o primeiro
presságio de que o dia seria bom. como diria Jack, sempre que nos dávamos bem
ou, pra variar, dizíamos algo que fizesse sentido ou que demonstrasse que
tínhamos o mínimo de sensatez ou um pingo
de razão: estávamos terríveis!
pegamos os ingressos gratuitos das terças-feiras e fomos, finalmente, fumar o
baseado no vão do MASP e o fizemos enquanto
esperávamos os amigos de George que
já estavam nos esperando antes de
pegarmos o primeiro ônibus de um trajeto de mais ou menos uma hora e meia da
zona leste até a Paulista. sem estresse. um dos caras até deu uns pegas quando
chegou. gente boa. na metade do beck minha
mente já estava zunindo. passei-o de volta pro Jack, George não estava fumando.
Eddie não fuma. passei-o de volta pro Jack dizendo
- tô de boa...
dali a alguns pegas, Jack me passou de
volta e eu peguei. dei mais uns dois, senti que ficava ainda mais zureta e só
então me lembrei de que estava de boa desde a rodada anterior. devolvi, depois
do pega de adeus, dizendo novamente
- tô de boa...
a cena se repetiu mais três ou quatro
vezes, até que senti a ponta queimando meus dedos e passei-a de volta pro Jack,
dizendo em tom enfático
- hey, Jack... não me passe esse baseado
novamente, sim? eu já disse que
estava de boa há um teor muito
significativo de THC atrás... mas aí, cara, você estende a mão pra mim e é tão
natural quanto andar... quando vejo, já estou mandando a fumaça pra dentro de
novo e só então me lembro que estava de boa, mas aí a fumaça já subiu pra cuca
e deu aquele click de novo. o click é o meu limite, mas ele nunca para
de acontecer. ele vive estalando. clicks,
clicks e mais clicks infinitos.
Jack lembrou de como fazemos isso sempre
e de como Jéssica, sua ex-namorada-atual-rolo-futura-e-atual-dor-de-cabeça,
fruto de outro desses reencontros-emboscadas, também o fazia. coisa de
maconheiro.
entrei leve. me livrei de todas as coisas
no guarda-volumes. queria as mãos livres pra receber o Portinari. na espera do
elevador, que foi uma confusão quando chegou, me lembrei de que não havia
trazido nada pra fazer anotações, logo quando estava tentando voltar a escrever
e queria uma desculpa. droga. queria rabiscar qualquer bobagem que pudesse
servir pra escrever algo tipo isso aqui. nada grandioso, apenas real. pedi a
George, que confiscara meu smartphone,
que o devolvesse com a promessa de me comportar, deixando-o em modo avião,
assim eu poderia usar o aplicativo do bloco de notas – péssima escolha, mas foi
o que fiz. não que eu não soubesse me portar em uma exposição. eu queria e
precisava estar só. e eu queria a garotinha ruiva ali comigo. não queria
deixá-la só. uma bosta essa era da comunicação. outro dia, durante um desses
discursos cerimoniosos, um cara citou alguém muito importante que dissera que
nunca houve tantos recursos que possibilitassem a conexão entre as pessoas e
que nunca estivemos tão sós. uma bosta
tudo isso.
o primeiro piso tinha uma exposição de
gravuras. foi o que bastou pra me separar dos outros caras. eu tinha uma cuca
cheia de fumaça verde, um coração cheio de garotinhas ruivas com seus sonhos
perturbadores e epifânicos e os olhos brilhando a cada detalhe em preto e
branco que me saltava à visão como imagens digitais de doze bits por pixel em
monitores de oitenta polegadas pra cima. e não queria perder nenhum. fui devorando
cada imagem, fui seguindo a fila, no meu tempo, que parecia estar completamente
desalinhado com o de todos os outros ali. os outros caras corriam pra ver o Portinari.
mas pra isso eu não tinha necessidade de ter pressa. continuei esmiuçando
gravura por gravura, com minha lupa de Sherlock invisível acoplada à retina, me
arrepiando cada vez que descobria uma pista nova. tudo ia bem, eu seguia a
ordem. fui visitar o pouquinho das touradas do Goya que estavam por lá desde a
última vez em que tivera esse andar só seu. foi quando descobri que eu gostava
de gravuras mais do que qualquer outra coisa no mundo das artes visuais.
saudei-o. percebi que estava com saudades. devia ter voltado antes, pensei. mas
depois percebi que ele sempre esteve lá e sempre estaria e que por isso, pra
vê-lo, também não era necessário ter tido pressa e não mais o seria dali em
diante, pois com ele, seguramente, a vida me armaria um reencontro. amém. despedi-me,
fazendo reverência e me afastei, andando de costas, sem despregar os olhos das
touradas até que não fosse mais possível vê-las, através da parede da próxima
série.
aí parei no tempo, me perdi da linha que
marca a direção que os observadores devem seguir. virei o trem desgovernado do
sonho alheio. descompassei. lá estava ela. foi amor à primeira vista. alguns
outros observadores mais práticos que eu, pra minha sorte, dificultavam a
visão, pois ela estava na parede oposta à entrada da série. me estiquei e
retorci de maneira desproporcional ao ambiente, esbarrei em pessoas, pedi
desculpas desajeitadas sem nunca perder o contato visual com ela. tá tudo bem
agir assim no trem ou no ônibus que acabávamos de pegar ou que costumamos pegar
todos os dias. pra uma galeria de arte, não tá tudo bem, era muito destoante.
sei lá porque diabos as pessoas têm que se portar assim ou de outro jeito aqui
ou acolá. eu preferia que fôssemos todos verdadeiros em todos os lugares a
todos os momentos. eu nasci destoado. eu estava destoado e não dando a mínima
pra tudo aquilo. eu estava verdadeiro. eu estava louco com a cabeça cheia de
erva, o peito cheio de ruivas e os olhos vidrados de paixão e é assim que sou
verdadeiro. ela não tinha rosto. na verdade não passava de um busto um pouco mais
evoluído. seu braço, o único que aparecia, aparecia somente até o cotovelo e o
restante estava escondido sob uma toalha que lhe secava o cabelo da cabeça
voltada para o chão, também encoberta. seios reais. em pé, suas pernas se
perderam entre a cama e a perspectiva do artista. mesmo assim, dava pra notar
uma cinta-liga solta, caída na altura do joelho, apoiado sobre o colchão. o
quarto era escuro, úmido, sem janela, muito abafado. os lençóis encardidos. uma
prostituta. uma prostituta sim, que secava o cabelo depois do banho precedido
pelo sexo. ontem, conversando com o
Poeta, ele me citou alguém que dissera que a arte é prostituição. eu não sei
quanto tempo fiquei olhando pra ela. não tinha nome. uma prostituta qualquer,
de Edgar Chahine. trinta, quarenta minutos. estava nua. nua em preto e branco.
me despi também. eu pude sentir o suor escorrendo pelas têmporas do cara que
deu vida a tudo aquilo. grande Edgar! bem disse Veríssimo, o Luís Fernando.
num susto, Eddie me tirou daquele quarto
barato de um motel qualquer em Paris. debochou de minha boquiabertice e disse
que já haviam visto os outros andares, o Van Gogh e o Renoir nosso de cada
visita e que iriam ver o Portinari finalmente. eu mal abri a boca e consegui
balbuciar que fossem, acho. voltei pro quarto, me sentei na cama, nos lençóis
amarelados pela força do tempo no papel e pela existência suja daquela mulher
que era a própria arte. fiquei mais alguns minutos ali. beijei-lhe a boca e as
mãos inexistentes e levei comigo o gosto amaro da marginalidade – amargo e
amado. peguei a barca e refiz o caminho de volta, na companhia de Dante. primeiro
o último: Cócito, o rio de gelo. então Flegetonte, o rio de fogo. depois Aqueronte,
o rio das dores e finalmente o Letes, o rio-purgatório. pronto! já podia ver as
estrelas novamente! ao saltar da embarcação rumo à margem da subconsciência,
atirei gorjeta ao barqueiro, que acenou com a cabeça e sumiu diante de meus
olhos, que ficaram não entendendo se havia sido real, se não passava de um
sonho ou se tinha sido apenas uma viagem ilícita. mas olhei a puta uma vez mais
e lá estava ela, como um tapa na cara pra recobrar a consciência, pra provar
que existia sim. acenei de longe. dei-lhe as costas. às putas dá-se as costas.
e ela era a própria arte.
segui para encontrar os caras. ou ao
menos, tentei. estava perdido naquele museu que conheço de trás pra frente.
estava perdido naquela vida que conhecia de cor. algo acabara de sair do lugar.
desajustado, peguei o elevador pro segundo andar. me deparei com uma exposição
surpresa (pra mim, que estava no mundo da Lua), de Lucian Freud. o neto do cara. era uma exposição de gravuras. uma
exposição todinha de gravuras do neto do Freud! eu não podia acreditar na minha
sorte! eu estava terrível! aquilo não
estava acontecendo comigo. era outro sonho desperto? eu devia estar muito
chapado mesmo. a catarse, o lance com o Dante e a puta-obra-de-arte, tudo bem,
mas o neto do Freud!? sem imersão textual dessa vez. saiba somente que passei meses
na companhia apenas de papel, nanquim, do neto do Freud e de muita, muita gente
nua. até o cachorro que retratava estava nu. não me pergunte como. se eu
duvidava da existência de deus, tive certeza de que ele havia intercedido por
minha sanidade, quando vi o último quadro da exposição. era um autorretrato no
melhor estilo preto e branco-encardido. uma gravura magnífica. magnificamente
demoníaca. perturbadora. deus-o-universo-ou-o-coelho-da-páscoa-que-seja! o
guardou pro final. quando eu já estava pronto pra encarar a perversidade dos
infernos. quando alguma coisa já tinha sido movida. vi a alma imunda de Dorian
Gray, maculada por toda maldade e obscuridade que pode conter o lado negro do
ser. quase caí no abismo da humanidade. fui até a beira do precipício e de medo,
recuei. se a própria pulsão de morte hesitara diante daqueles traços tão vis,
tão brutais, quem era eu pra me entregar? não queria pegar carona na balsa
novamente, com passagem só de ida. seu avô ficaria orgulhoso, Lucian. você fez
o dever de casa. pulsões e putaria. fugi.
fugi para os braços do Portinari. e eram
braços imensos, tão imensos que precisava me distanciar até mais do que os
poucos metros quadrados da instalação me permitiam, pra poder enxergá-los com
abrangência. havia muita gente por ali. e eu muito desajeitado com tudo aquilo que
passara. foi aí que rapidamente recobrei a fé na não existência de um deus,
quando tropecei n’Os Retirantes. pertenciam ao Chateaubriand agora, como todo o
resto dos quadros, das paredes, do chão, do museu, dos outros museus, das ruas,
praças, avenidas e pessoas. que vadia irônica essa vida. saíram do nordeste
passando todo o tipo de privação para acabar nas mãos desse cara. saímos de
nordestes diários o os atravessamos a pé e passamos todo o tipo de privação e
todo o tipo de merda nos é empurrado goela abaixo e acabamos sempre pregados em
paredes pertencentes aos Chateaubriands que circulam por aí, carregando o mundo
todo em suas carteiras. essa é outra bosta.
fugi dali também. os caras estavam
incomodados com minha demora. Eddie, George e seus amigos foram embora. Jack e
eu ficamos para que eu pudesse voltar até o Renoir e o Van Gogh nosso de cada
visita, pois o nome já diz: Renoir e Van Gogh nosso de cada visita. e antes mesmo das cervejas nossas de cada
dia, amém, estávamos muito chapados, bem mais do que quando entramos, com a
mente pirada. estávamos rindo à toa. altos. falando coisas muito mais fora da
realidade que o normal. estávamos em órbita. em sintonia com outras galáxias.
nossa cabeça precisou crescer uns vinte por cento pra poder acomodar toda
aquela troca de inconscientes. nos embebedamos e eu me esqueci que só estava
com dez conto no bolso. era minha
nova técnica pra não torrar todo meu dinheiro, que não era muito, em bebida. Jack disse
que estávamos enrascados. já tinha me convencido de que ia lavar pratos e então
pedi mais uma cerveja pra superar aquilo e só então o desgraçado revelou que
tinha o suficiente pra pagar o porre. comemoramos com outra cerveja. a intenção
não era essa. tínhamos saído pra passear como fazem as pessoas bem ajustadas.
fomos ver o Portinari e voltaríamos pra casa ilesos, mas encontramos o neto do
Freud no caminho, algumas prostitutas, muitas gente nua, Dante Alighieri, um
tal de Edgar e outras más companhias. havíamos tomado doses cavalares de humanidade
que foram demais pra um só dia e o plano foi pelas águas dos rios infernais
abaixo. perdemos o controle outra vez. acordei no dia seguinte com uma ressaca
dos diabos. sorte que não tinha que trabalhar. pobre Jack que teve.