existe uma doença cujos sintomas se manifestam constantemente apenas no plano das ideias. começa com a eventual sensação de que se está no lugar errado, na hora errada, fazendo a coisa errada. ou que se deveria estar em outro lugar, em outro momento, fazendo outra coisa. ou que se deveria estar aonde se está, fazendo exatamente o que se está fazendo, mas num outro momento.
falta menos de três horas para vencer o prazo. eu deveria agora estar desfrutando da companhia de amigos já bêbados enquanto cuidamos dos últimos preparativos de um churrasco para celebrar... apenas celebrar. mas por enquanto estou num quarto, nos fundos da casa, ainda reescrevendo o texto que tive mais de um mês para terminar. que comecei infinitas vezes e abandonei e que por isso considero que só o comecei agora. no agora do churrasco, porque nos agoras do texto eu provavelmente estive fazendo coisas que não fiz nos seus devidos agoras. essa é a sensação crítica-crônica da idealização que é uma doença legitimamente temporal. sentir sempre e não apenas eventualmente que eu deveria estar fazendo exatamente o que estou fazendo agora, mas num agora do passado. ou do futuro.
por outro lado, estou apenas sendo eu mesmo e nesse agora o Raulzito está tocando ao fundo e eu ouço meus amigos ao longe e sinto a agitação que precede o agora da reunião de mais tarde. talvez isso seja no fundo o ideal: aquilo que é desfrutável. é uma loucura muito grande que não seja. por outro lado, talvez se eu estivesse não-fazendo o que estou fazendo agora, agora, eu tivesse tido tempo de não escrever o texto assim, tão imediato. pois o imaginei de outra maneira. mas também o imaginei em outro agora. um agora em que eu não estivesse correndo contra o agora de agora.
não sei de que lado me sentar nessa mesa. tenho perspectivas múltiplas das quais quase sempre - ou nunca - me orgulho. mas quando se trata das questões básicas e essenciais, como o que é ideal?, estou sempre na mediocridade. a vida é na verdade muito medíocre e boa justamente por isso.
o ideal é que o primeiro porre seja no mínimo no agora da faculdade, aos 20 anos no máximo, pois esse é o agora ideal para se estar na faculdade e não numa festa em casa de tios, aos 7 anos de idade, com uma única garrafa de cerveja, que é o real. na escola é ideal que uma criança que tire as melhores notas, sente-se à frente da sala, tenha os cadernos encapados e organizados e use canetas coloridas para enfeitar a cópia de tudo o que a professora passe na lousa... e não que na real se vá a diretoria no mínimo uma vez por mês, por sentar no fundão e tocar o terror com os outros garotos, desperdiçando os agoras destinados para a cópia da lição e desperdiçando então os agoras de alguns finais de semana para recuperar ilusoriamente apenas outros agoras passados.
é uma alucinação infinita digna de viagens ácidas e transcendentais e digna de todos os outros exemplos de loucura que eu poderia listar talvez - se não o estivesse fazendo agora, quase sem tempo para tal - que passemos a vida tentando recuperar agoras ideais e que deixemos que os agoras reais sejam sempre tão adiados. e talvez seja uma igual loucura que não se tenha ideais dos quais correr atrás. eu não soube antes e não sei ainda que cadeira tomar, então agora, faltando quarenta e dois minutos para a hora ideal, eu me levanto e tomo um copo, como quem toma uma pílula para todo o mal estar de se estar existindo ou desistindo do que é ou não real.