sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

água na casa do Sol

tô ouvindo a chuva e me perguntando se há um limite pra que a água caia. quantas horas é possível chover sem parar? será que dá pra inundar o mundo? São Paulo a essa altura já é só inundação, imundo. e eu penso nas pessoas que não podem estar em suas casas acinzentadas pelas nuvens carregadas se perguntando quanta água ainda pode cair e me sinto bem por não ter que ser uma delas nesse exato momento. mas basta me lembrar que mais uma vez fui até a cozinha pra comer alguma coisa e que não consegui botar nada pra dentro além de mais água do que já havia em mim e mais da paisagem vazia do muro molhado da casa do vizinho onde tantas outras chuvas deixaram um rastro de lodo na vertical através da minha janela cheia de respingos preguiçosos. então eu me pergunto quantas vezes um cara pode se levantar da cadeira e se arrastar até as panelas e desistir porque no último instante a lembrança de que já é hora de sentir fome não foi suficientemente convincente pra que a fome resolvesse aparecer pra valer. só a sede sobressaiu. pensando agora nas incontáveis voltas ao redor do travesseiro e da cama sem a possibilidade de dormir e as infinitas idas ao banheiro durante a madrugada pra deixar correr os copos engolidos nas tão-infinitas-quantas idas até a cozinha de madruga e me pergunto quanto tempo é possível ficar de pé e lutar contra a falta de sono. então não vejo mais tanta vantagem em não ser uma pessoa não-sentada em casa ouvindo a chuva no lugar de estar lá fora e ter de aproveitá-la. todas essas quantidades me soam tão torrenciais quanto a melancolia pode ser. como a quantidade de pessoas lá fora. como a quantidade de tics que ouço escorrendo pelas teclas desse lamento sem fim e pelas gotas desse meu temperamento. é impossível calcular as voltas que um filho da quarta casa estelar dá em direção ao horizonte para o qual navega e que massada tudo isso! mas mesmo assim, prefiro tédio a Toddy.