- Acho... Sei lá. Acho que sim. Quer dizer,
acho que devia ter escolhido o tio como tema, em vez da fazenda, se isso era
mais interessante para ele. Mas o caso é que, muitas vezes, a gente só descobre
o que interessa mais na hora que começa a falar sobre uma coisa que não interessa
muito. Quer dizer, às vezes a gente não consegue evitar isso. O que eu acho é
que a gente deve deixar em paz uma pessoa que começa a contar uma estória, se a
estória é pelo menos interessante e o sujeito se anima todo com o assunto.
J. D. Salinger
eu tinha que estar escrevendo
sobre um objeto. então eu sentei na cadeira e não consegui pensar em nada. mas
aí lembrei de uma sensação que tive hoje. tem feito muito calor nos últimos
dias e eu estava de férias. mas aí tomei banho pra ir trabalhar e quando saí do
banho percebi que pela primeira vez nos últimos vinte e cinco dias eu vestia uma calça. eu
só tinha usado bermuda esse tempo todo. mas choveu o dia todo e a temperatura
finalmente caiu e tava bem gelado quando eu saí do banho então não me importei
em vestir calça, mas estranhei assim mesmo e só. então resolvi
colocar uma camisa bem fresca que eu comprei pra usar em praias e em lugares
frescos. resolvi passar frio. deliberadamente. eu sou bem esquisito. no duro
que sou. saí de casa feliz da vida, com os pelos do braço todo arrepiados e o
nariz gelado e as orelhas e tudo. já não chovia mais, mas estava um vento baita
gelado e eu fui sentindo frio feliz da vida até que percebi que tava mesmo era matando as saudades
de sentir frio. eu sou muito esquisito mesmo, mas já que eu tenho que falar de um objeto, eu resolvi que ia
falar dessa camisa fresca que eu comprei. não é que seja muito detalhada. não é
fresca assim. é bem simples. é azul claro até a metade e depois é branca, como
se tivesse molhado só até a metade e nunca mais secado. foi bem cara, é
verdade. mas a questão não é essa. na verdade, eu compro uma camisa de que gosto
bem cara com a mesma destreza que compro uma camisa de cinco contos num brechó, porque
gostei. e não é que eu tenha dinheiro pra comprar coisas caras com a mesma
destreza que compro coisas baratas, mas a verdade é que eu não dou a mínima pra
dinheiro. eu tenho uma poupança e eu queria comprar uma moto. todo mundo que me
conhece acha que eu não deveria ter uma moto. moto é outro objeto do qual eu poderia falar e perigoso.
mas acabou que eu achei que ia ser mais divertido torrar a grana viajando nas
férias e comprando coisas caras e baratas e tal. e no fim das contas o que
sobrou da poupança não dá nem pra comprar um capacete e um traje completo. são
objetos caros esses e indispensáveis pra quem quer ter um objeto como uma moto
- ainda bem que não tem ninguém pra gritar “digressão!” enquanto digito meu
texto sobre um objeto, como nO Apanhador no Campo de Centeio, na aula de
Expressão Oral - imagina você ter que se levantar e fazer um discurso sobre um
objeto, a camisa fresca no caso, a moto ou o livro, com alguém gritando isso na
sua cabeça. seria de matar. a maioria das pessoas que me conhecem acham que eu
não devo ter uma moto porque é um objeto perigoso e três vezes mais perigoso
para quem tem a fama que eu tenho, de quem entorna o caneco. e entornava mesmo.
eu costumava beber à beça. ah, sim. como um velho fazendeiro do Texas. mas hoje
em dia eu não bebo mais como antes. no duro que não. e não tenho mais
resistência nenhuma pra bebida também. por exemplo, outro dia eu saí com uns camaradas
e fomos a uma casa de jogos que tem perto da onde eu trabalho e tal, no bairro
do Tatuapé. e jogamos Guitar Hero e o jogo dos piratas e basquete e até matei
as saudades do Metal Slug, do primeiro Play Station que eu tive. e aí depois eu
quis comer um cachorro quente de rua e até pensei em ir ao bar que tem ao lado
dessa casa de jogos pra tomar um Lambrusco, como sempre fazemos, mas eu não
estava com vontade de beber e depois do cachorro quente de rua eu ia pra casa e terminaria o passeio sóbrio e tudo, mas um amigo me disse que estava indo encontrar outros
amigos, alguns eu conhecia até, num karaokê da Avenida Imperador. eu conheço
aquele lugar bem pra valer e jurei por deus que não tinha nem um karaokê por
lá. mas aí ele me disse que era no trecho depois da Águia de Haia. acontece que
essa avenida é uma daquelas que mudam de nome em determinado trecho, o que me
deixa maluco. mas se tem uma coisa que me tira ainda mais do sério é alguém
chamar o trecho que chama Estrada de Mogi das Cruzes de Avenida Imperador. não
é a mesma coisa, pombas! mas tudo bem, esclarecemos tudo e decidi ir. e eu não
bebo mais cerveja, mas não consigo me soltar pra cantar legal sem beber nada.
então decidi que ia tomar vinho e perguntei à moça se ela tinha vinho,
esperando que ela me perguntasse algo como seco
ou suave? mas ela me desarmou com um tem
sim, um vinho delicioso, bem docinho, muito gostosinho. a verdade sobre
diminutivos é que não posso com eles. se alguém disser que vai cortar o meu bracinho, arrancá-lo fora, eu pergunto
apenas se o esquerdo ou o direito. e
foi quase isso o que aconteceu, porque eu detesto vinho muito doce. eu não
gosto de nada muito doce. nem se eu tomasse café eu tomaria com açúcar e acho
um absurdo colocarem açúcar no vinho, já que dá muito bem pra adoçá-lo só com a
frutose da uva na fermentação, que é como fazem o Vinho do Porto, segundo
descobri recentemente. e o pior foi que aceitei o vinho docinho-gostosinho e era doce como o diabo. não sei dizer se era
ruim e eu nem sequer perguntei o nome. eu não ia saber recusar mesmo que fosse
daqueles que vêm em garrafas de plástico e que nem são vinho, são bebidas
fermentadas de maçã que é pior do que beber o próprio líquido da espinha dorsal
e foi tudo culpa da simpatia da moça que veio me atender. então eu bebi uma
taça daquele vinho que mais parecia um torrão de açúcar derretido no mel. então
fui até o bar ver o que tinha lá. queria, precisava de uísque agora, pra esquecer de todo aquele melado. mas do balcão
descobri que só tinha essa porcaria desse Red Label que parece uísque com água
e xixi de bebê que só bebeu água batido no liquidificador. uma porcaria. mas ao
lado da garrafa tinha uma garrafa de Domecq e eu quase chorei de emoção. eu
gosto muito de conhaque. mas não esses como Presidente ou Domus ou Dreher e nem
desses que custam quatrocentas pilas. não, gosto só de Domecq. meu amigo
imaginário até tem o nome dele: Pedro Henrique Domecq. só acrescentei o
Henrique. e aí pedi uma dose. não é amargo. eu gosto de coisas amargas até
certo ponto, mas não é o caso. é forte, licoroso, sóbrio. um conhaque com um
gosto sóbrio e deixa uma ardência na boca que é devida ao envelhecimento em
barris de carvalho e a porra toda que se diz sobre bebidas assim. e acontece
que eu só bebi três doses a noite toda, acompanhadas de umas cinco garrafas de
água, mas tomei um porre tremendo. no duro, não lembrava a última vez que tinha
ficado daquele jeito. só sei que quando deu quase meia-noite eu precisei e quis
ir embora e a namorada de um amigo desse amigo que me chamou pra lá me levou de
carro pro metrô junto com esse meu amigo. e acontece que eu não lembro em que
metrô entramos e muito menos no que saltei. não lembro como saí do metrô pro
ônibus. só lembro que estava na cadeira ao lado do motorista do ônibus que
estava chegando na garagem e que estava explicando ao fiscal que tava
perguntando o que eu tava fazendo lá, que eu tinha dormido e perdido o ponto e
ido parar no final e já era o último carro e que não quis me deixar lá pra ser
roubado ou coisa pior e que eu havia pedido pra tomar o ônibus da garagem. o
que acontece é que não é a primeira vez que isso me acontece e só entrei em
pânico na primeira e eu não tava bêbado nem nada, mas estava há sete dias sem
dormir e depois de um show tomei um ônibus e dormi os sete dias e acordei no meio
do nada. e era o último ônibus. mas depois descobri que tudo é questão de
manter a calma. então eu, segundo o que descobri, havia pedido pra pegar o
ônibus na garagem. eu estava no final do Camargo Velho, perto da casa do velho
Dan, mas eu não queria ir pra lá. então eu desci do carro e esperei, junto aos motoristas
e cobradores e fiscais que confraternizavam em frente à garagem com latinhas de
cerveja e espetinhos de churrasco de dois reais enquanto outros ainda
estacionavam os carros e esperavam pelo transporte noturno que levaria eles pra
casa. então perguntei qual era a rota do ônibus que eu tava esperando e o cara me
disse que ele descia a Tibúrcio toda e virava na Marechal e que lá entrava no
viaduto depois do D’avó e depois disso eu parei de ouvir porque atravessando o
viaduto eu estaria em casa e daria tudo certo. eu teria voltado andando, essa é a
verdade. não tenho medo de ser roubado ou coisa pior. não mesmo. o que roubam
da gente não passa de um objeto. ou dois e dinheiro, no máximo, mas eu não dou
a mínima pra dinheiro e acontece que depois de virar no viaduto o ônibus ainda
seguia direto e virava pra esquerda uma rua depois de passar pela minha rua.
então foi assim que eu saí da Estrada de Mogi das Cruzes por volta de meia-noite e fui parar na esquina
de casa e devia ser umas três da manhã. nem um ônibus normal faz essa conexão. em casa minha mãe e minha irmã
estavam acordadas e eu fiquei meio encabulado porque fazia tempo que elas não
me viam na situação em que eu estava: bêbado feito um gambá. e pior, só com
três doses de conhaque e uma droga de uma taça de um vinho de açúcar. ninguém ia acreditar em mim. fui
comer mas não lembro bem. só sei que
comi soja e abobrinha e molho com salsicha, mas nem sinal de arroz ou feijão.
acordei no dia seguinte com uma baita dor de cabeça pensando que ia morrer. um
dos motivos de eu ter parado de beber é que eu sempre achava que ia morrer no
dia seguinte, tamanha a ressaca. dor em tudo. senti até um calor no peito e o
braço esquerdo dormente e tudo. pontadas no coração até. mas eu sou um sujeito
muito maluco e não enfartei porque era tudo psicológico como sempre e como todo o resto. como essa
camisa branca toda amassada e a saudade e o frio e o livro.