tris.te.za
sf (lat tristitia) 1 melodia em tom menor que vai nascendo de um grave quase inaudível,
presente apenas nos canais secundários, à princípio, e que vai se instalando de
maneira que não seja possível identificar o todo até que notas mais agudas sejam
esparsamente arrancadas como pétalas de bem-mal-me-quer e entre as quais é
possível identificar o arranhar dos dedos nas cordas a arrastarem-se contra as
casas marcadas entre duras hastes (de aço?) e então um baque surdo começa a se
repetir marcando o tempo fatal e preguiçosamente de modo a quase perder-se em
meio ao vão do nicho de um canto que surge de uma voz fraquejando palavras
roucas sobre qualquer coisa de melancólico. qualquer coisa mesmo. uma manhã de
chumbo com pancadas de chuva no peito. uma criança com o olhar mudo e baixo e o
braço muito acima da cabeça sendo arrastada pela mãe indiferente que não
percebe o doce recém-aberto caído no chão. a moça de capuz que cruza por mim na
estação enquanto fala ao telefone e verte lágrimas e incha os olhos e borra a
maquiagem e cola o ouvido ao aparelho que lhe diz... apenas lhe diz. ou
qualquer coisa assim. ou nada disso. na verdade, nada disso. a voz não é clara,
não é assim tão óbvia. a voz que ouço canta em língua morta. a escrita
universalista é para os grandes. a tristeza de que falo é essa que ninguém viu
chegar e que agora estremece as vigas do edifício em ruínas com o estrondo
ininteligível do não-sei-o-que de triste que há na vida. quando não é a chuva,
é o sol. quando não é o excesso, é a falta ou o excesso da falta. e não é excesso
de falta de amor piegas. é excesso de falta sem nome. não é o vazio ou a
plenitude. é a tristeza sutil que entra, senta, serve-se e permanece...
intacta.