segunda-feira, 11 de novembro de 2013

tristeza

tris.te.za

sf (lat tristitia) 1 melodia em tom menor que vai nascendo de um grave quase inaudível, presente apenas nos canais secundários, à princípio, e que vai se instalando de maneira que não seja possível identificar o todo até que notas mais agudas sejam esparsamente arrancadas como pétalas de bem-mal-me-quer e entre as quais é possível identificar o arranhar dos dedos nas cordas a arrastarem-se contra as casas marcadas entre duras hastes (de aço?) e então um baque surdo começa a se repetir marcando o tempo fatal e preguiçosamente de modo a quase perder-se em meio ao vão do nicho de um canto que surge de uma voz fraquejando palavras roucas sobre qualquer coisa de melancólico. qualquer coisa mesmo. uma manhã de chumbo com pancadas de chuva no peito. uma criança com o olhar mudo e baixo e o braço muito acima da cabeça sendo arrastada pela mãe indiferente que não percebe o doce recém-aberto caído no chão. a moça de capuz que cruza por mim na estação enquanto fala ao telefone e verte lágrimas e incha os olhos e borra a maquiagem e cola o ouvido ao aparelho que lhe diz... apenas lhe diz. ou qualquer coisa assim. ou nada disso. na verdade, nada disso. a voz não é clara, não é assim tão óbvia. a voz que ouço canta em língua morta. a escrita universalista é para os grandes. a tristeza de que falo é essa que ninguém viu chegar e que agora estremece as vigas do edifício em ruínas com o estrondo ininteligível do não-sei-o-que de triste que há na vida. quando não é a chuva, é o sol. quando não é o excesso, é a falta ou o excesso da falta. e não é excesso de falta de amor piegas. é excesso de falta sem nome. não é o vazio ou a plenitude. é a tristeza sutil que entra, senta, serve-se e permanece... intacta.