falar do tempo? do sol ameno ao
inverno sombrio? do vazio das horas? da vida do vizinho? do capítulo da novela?
do existencialismo de Sartre? do meu existencialismo? de Deus? do Universo? da
não-existência divina? das chagas da alma? das mazelas humanas? das atrocidades
das guerras e do egoísmo capital? do que está em cartaz no cinema? no
teatro? nos museus? não. talvez mais jovem, de barba feita. cabelos aparados.
vestindo camisas e panfletos vermelhos. talvez quando com o violão nas costas
e a reunião de amigos em volta de músicas de protesto ou das rodas-vivas
improvisadas nos bares próximos à escola, à universidade, ao trabalho, à esquina de casa.
mas agora não. agora vivo do jeans surrado. para a poeira da estante e para
o amontoado de papéis sobre a mesa que prometi a ela que arrumaria, assim como
não mais deixaria a toalha molhada de meu corpo recém-saído do banho sobre a
cama. assim como não mais diria coisas do tipo... me desculpe? mas a toalha continua lá. até
secou. e a pilha de papeis só cresceu, com a pilha de desculpas, quase no mesmo ritmo que minha barba
rala e a frequência com que passei a vestir camisas sem passar. a beber café, e requintado, água da torneira, cerveja choca, vinho barato. a fumar bitucas
esquecidas nos cinzeiros ou jogadas pelo chão da casa, perdidas entre as meias e as luzes encardidas e acres e as embalagens de qualquer porcaria que se possa ruminar enquanto estou eu também esquecido no meio da casa. no meio do chão.
preso bem no meio do momento em que ela saiu pela porta e não mais voltou e o
momento em que ela não mais voltará. esse é meu tempo agora. o sol ameno insulta a
sombra dos meus cabelos desgrenhados caídos nos olhos. o inverno sombrio apenas acena
positivamente a cabeça, consentindo minha dor. não a agrava. nada poderia.
nada, exceto a primavera de nossos dias. nada, exceto o riso sinuoso
contracenando com seu molejo de corpo quando ainda lhe aprazia seduzir-me.
nada, exceto as perguntas incisivas e o interesse vivo pela minha confusão
juvenil de quando nos conhecemos. nada, exceto o vermelho de suas unhas e
lábios e cabelos e dos arranhões e das mordidas que deixava em meu ser
desajeitado. nada, exceto sua segurança viril e sua fragilidade de menina de
quando em quando, quando seu coração também cansava da vida, da maldade, da
falta de dinheiro, da falta de tempo, da falta de amor. nada, exceto as
conversas sobre absolutamente nada, que duravam dias. nada, exceto acordar no
meio da noite com uma ligação ou um bafo quente no pescoço.