não há quem escreva e nem a quem escrever. não há local de envio e tampouco uma data; logo nem haverá carta. só há a verdade absoluta que se desprende da matéria em decomposição contínua e insistente e que sussurra surdamente o mundo está ruindo... posso senti-lo... e não é de hoje... é uma poeirinha um pouco mais rançosa que se desprende ao bater do vento e vai diminuindo conforme se distancia da matéria até finalmente se diluir no ar por completo. vai parar em nossos pulmões e corrente sanguínea até que o cérebro e o coração estejam repletos de decadência física mal-resolvida. sinta! sinto nos pés o asfalto diminuir gradativamente a cada passo sob o peso do céu finito, milímetro por milímetro, a terra está afundando ao redor de si com toda a gente dentro. os risos estão silenciando, posso ouvir. posso ouvir cada vez menos. o céu vai cinicamente cedendo ao movimento da terra que se puxa rumo ao seio da gravidade. vai cair! vai chegar o dia em que vamos esbarrar com nossas cabeças-balão de gás-hélio-decadente nas nuvens de chumbo e com o impacto vamos dar de cara no chão, tão fina a camada entre os dois extremos. estou vendo a hora, meu bem. está tudo claro. nem o líquido, nem o sólido ou o gasoso. o mundo está ruindo. não posso ouvi-lo e não é de hoje. de hoje nem o pão. nem o vinho ou o circo. só o cerco. de hoje nem o ontem. de hoje nem o hoje. já passou. já passou. já passou.