sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

a morte segundo meu pé de hortelã

segundo meu pé de hortelã, a morte não existe, além de ser imaginária e pra lá de impossível. isso mesmo: segundo meu pé de hortelã. a princípio eu duvidei. então, como que quem faz de pirraça, ele secou. não assim, de uma vez, mas começou a secar lentamente: primeiro as folhas foram acinzentando, enfraquecendo, caindo. depois os galhos foram perdendo a força, a forma, o líquido e a cor. ele foi diminuindo, diminuindo, diminuindo, até sumir completamente. fiquei triste. muito triste. lembrava dele no começo e desacreditava que aquele fosse o mesmo hortelã pós-chuvas de verão e em hipótese alguma aquele seria o mesmo hortelã da primavera. aquele lá que se espalhava e ganhava quase todo o corredor de entrada; lembra? custava a crer. não era possível. eu chamava, mas ele não respondia mais. já conformada, deixei de regar. deixei ele lá, só o vaso, esperando pra trocar por uma muda de alguma outra erva. uma que estivesse viva. mas aí quase no final do inverno deu uma daquelas chuvas meio fora de época e apenas algumas horas mais tarde vi um pequeno galho verde despontar na terra preta. achei que fosse qualquer outra coisa que, de repente, alguma abelha havia plantado ali e quis ver aonde ia dar. continuei a regar e em poucos dias esse galho já tinha o dobro de tamanho, muitas ramificações e folhas. muitas folhas. folhas muito verdes e muito cheirosas, grandes e sadias. folhas muito verdes, cheirosas, grandes sadias e de hortelã. isso mesmo. folhas de hortelã outra vez. então na metade do tempo de antes, antes mesmo de chegar a primavera outra vez,  e ele havia se multiplicado assim como que me dizendo "viu só? a morte é apenas mais uma estação."e o vaso voltou a ficar pequeno. depois foi a vez do corredor ficar menor, exatamente como meu medo da morte. desde então, sempre que preciso morrer, morro em paz, como quem apenas aguarda a primavera.