os corações mais calejados conhecem a importância de manter algumas músicas individuais, mesmo durante os momentos mais felizes do relacionamento ou, do contrário, corre-se risco de passar por um período de "seca auditiva" após o término, uma vez que a capacidade de certas trilhas sonoras de cavar memórias numa velocidade alucinante e trazer à tona todo o tipo de cenas a dois é brutal e, portanto, devem ser evitadas a todo custo. memórias estas, das mais marcantes às mais corriqueiras: uma viagem mágica e extraordinária ou uma mera manhã qualquer, dentre todas as manhãs compartilhadas - eis um erro comum e somente reconhecido quando se é tarde demais: nem uma das manhãs compartilhas é uma mera manhã qualquer, mas não é sobre isso que quero falar. continuando: sabendo da importância da individualidade sonora, ainda que inconscientemente, mantive este ou aquele álbum em segredo, minhas bandas preferidas de longa data ou algumas atuais, dentre as últimas descobertas nossas de cada dia, naquele baú que só se abre ao meu toque, como um chocolate que se guarda para comer mais tarde, a sós. graças a este recurso, a música tem sido minha mais frequente companhia. porém, eis que a tecnologia, como de praxe, introduziu um novo risco à sanidade emocional: as reproduções automáticas. e é sobre isso que quero alertar: tomem cuidado com as reproduções automáticas! roletas russas fatais. aleatórias como os pensamentos que nos invadem em momentos de meditação, trazem à tona, sem dó nem piedade, quando menos se espera, aquela música. aquela maldita música.