eu disse a ela que ela era uma garota bacana e ela riu do meu bacana. acho que esperava mais e a culpa disso é minha. quer dizer, eu tinha dito que escrevia e que tinha pretensões literárias: mostrei textos e tudo o mais. foi um adjetivo preguiçoso, reconheci finalmente. ela concordou. prometi me redimir. disse que eu não tivesse pressa.
o que ela não sabe é que escrever é estar sempre tentando se redimir e que pra redenção há sempre uma urgência gigantesca. é tentar fazer o gol já perdido naquela partida do último domingo. é tentar dizer as palavras exatas quando alguém te deu notícia de luto e você não pôde abrir a boca. é botar a camisa certa pra tomar chuva depois de já ter saído de casa de branco. é mandar pra longe as nuvens da tempestade antes da enchente que arruinou a cama da sua tia que acabou ficando com a sua e que por isso você agora dorme num colchão de solteiro no chão. é se importar com isso antes que alguém tivesse lhe dito que isso não é normal. é fechar o sinal a tempo de impedir o acidente fatal da última sexta. é voltar na delegacia e apagar o depoimento falso que colocou o moleque em cana por mais tempo que o devido mas só depois dele ter cumprido a pena toda. é gozar fora depois que o útero já foi fecundado. é reescrever o dia de ontem. é não dizer alguma idiotice memorável naquele primeiro encontro. é não confessar aquele segredo depois dele já ter te colocado contra a parede. é ter sido mais você quando o momento pediu. é ter sido menos você quando o momento pediu. é refazer o dia de ontem até que ele fique perfeito.
nesse ontem perfeito, eu não digo àquela garota bacana que ela é uma garota bacana. eu digo à ela que ela é o tipo de garota com quem se pode conversar sobre muita coisa e perder a noção do tempo porque ela é o tipo que tem muito a dizer e muitas vezes o diz sem sequer precisar abrir a boca. digo que ela é o tipo de garota que impressiona sem soar artificial, sem contar vantagem ou se gabar de uma porção de coisas bacanas que ela faça ou tenha feito e que isso é quase como ganhar na loteria sem jogar. que ela é o tipo de garota com quem se poder ser autêntico e verdadeiro. com quem não é preciso jogar.
herdamos do romantismo o péssimo hábito de fazer jogos de amor e achar que isso é bonito, que isso é bacana e que isso nos torna mais interessantes. acontece que no fundo estamos todos igualmente desesperados, ávidos, famintos por qualquer coisa ou qualquer pessoa que bote o sangue pra correr em nossas veias. qualquer coisa de humano. qualquer coisa de impossível, mas real. e burros que somos, blefamos e escondemos nossas angústias. jogamos um paletó por cima dos furos nas calças. jamais declaramos ao mundo nossas faltas. jogamos o jogo. interpretamos as pessoas perfeitas: somos as mães e pais perfeitos, os filhos e filhas perfeitos, os maridos e esposas perfeitas, os profissionais e aprendizes perfeitos e só ao outro cabe o dom do erro. mas quando chega a hora de sermos perfeitos, fingimos que dormimos no assento reservado. fingimos que não estamos ansiosos pra receber ou ler ou responder aquela mensagem. fingimos que não estamos ansiosos pelo primeiro beijo. fingimos que sabemos exatamente o que estamos fazendo, quando não temos a menor noção do que tá rolando. fingimos que somos intelectuais e gostamos daqueles filmes que ninguém entende realmente. ou que lemos aquela obra filosófica e a compreendemos. ou que vivemos de acordo com o que acreditamos.
mas tudo não passa de medo. tudo não passa daquela velha ânsia de ser lembrado, de ser aceito, de ser querido, de ser desejado, de ser, ainda que para uma garota bacana, imortal. e isso nos tira não apenas a dádiva do erro, mas do simples, do sincero. e uma garota que nos permita errar e ser simples e demonstrar sinceridade logo de cara e que de quebra seja capaz de se divertir jogando super nintendo depois de fumar um baseado com você num sábado à noite enquanto todas as outras possibilidades mais complexas e cheias de glamour estão fervilhando por aí, que te traga um vinho argentino e que divida seu colchão de solteiro no chão, definitivamente é uma garota bacana.
o que ela não sabe é que escrever é estar sempre tentando se redimir e que pra redenção há sempre uma urgência gigantesca. é tentar fazer o gol já perdido naquela partida do último domingo. é tentar dizer as palavras exatas quando alguém te deu notícia de luto e você não pôde abrir a boca. é botar a camisa certa pra tomar chuva depois de já ter saído de casa de branco. é mandar pra longe as nuvens da tempestade antes da enchente que arruinou a cama da sua tia que acabou ficando com a sua e que por isso você agora dorme num colchão de solteiro no chão. é se importar com isso antes que alguém tivesse lhe dito que isso não é normal. é fechar o sinal a tempo de impedir o acidente fatal da última sexta. é voltar na delegacia e apagar o depoimento falso que colocou o moleque em cana por mais tempo que o devido mas só depois dele ter cumprido a pena toda. é gozar fora depois que o útero já foi fecundado. é reescrever o dia de ontem. é não dizer alguma idiotice memorável naquele primeiro encontro. é não confessar aquele segredo depois dele já ter te colocado contra a parede. é ter sido mais você quando o momento pediu. é ter sido menos você quando o momento pediu. é refazer o dia de ontem até que ele fique perfeito.
nesse ontem perfeito, eu não digo àquela garota bacana que ela é uma garota bacana. eu digo à ela que ela é o tipo de garota com quem se pode conversar sobre muita coisa e perder a noção do tempo porque ela é o tipo que tem muito a dizer e muitas vezes o diz sem sequer precisar abrir a boca. digo que ela é o tipo de garota que impressiona sem soar artificial, sem contar vantagem ou se gabar de uma porção de coisas bacanas que ela faça ou tenha feito e que isso é quase como ganhar na loteria sem jogar. que ela é o tipo de garota com quem se poder ser autêntico e verdadeiro. com quem não é preciso jogar.
herdamos do romantismo o péssimo hábito de fazer jogos de amor e achar que isso é bonito, que isso é bacana e que isso nos torna mais interessantes. acontece que no fundo estamos todos igualmente desesperados, ávidos, famintos por qualquer coisa ou qualquer pessoa que bote o sangue pra correr em nossas veias. qualquer coisa de humano. qualquer coisa de impossível, mas real. e burros que somos, blefamos e escondemos nossas angústias. jogamos um paletó por cima dos furos nas calças. jamais declaramos ao mundo nossas faltas. jogamos o jogo. interpretamos as pessoas perfeitas: somos as mães e pais perfeitos, os filhos e filhas perfeitos, os maridos e esposas perfeitas, os profissionais e aprendizes perfeitos e só ao outro cabe o dom do erro. mas quando chega a hora de sermos perfeitos, fingimos que dormimos no assento reservado. fingimos que não estamos ansiosos pra receber ou ler ou responder aquela mensagem. fingimos que não estamos ansiosos pelo primeiro beijo. fingimos que sabemos exatamente o que estamos fazendo, quando não temos a menor noção do que tá rolando. fingimos que somos intelectuais e gostamos daqueles filmes que ninguém entende realmente. ou que lemos aquela obra filosófica e a compreendemos. ou que vivemos de acordo com o que acreditamos.
mas tudo não passa de medo. tudo não passa daquela velha ânsia de ser lembrado, de ser aceito, de ser querido, de ser desejado, de ser, ainda que para uma garota bacana, imortal. e isso nos tira não apenas a dádiva do erro, mas do simples, do sincero. e uma garota que nos permita errar e ser simples e demonstrar sinceridade logo de cara e que de quebra seja capaz de se divertir jogando super nintendo depois de fumar um baseado com você num sábado à noite enquanto todas as outras possibilidades mais complexas e cheias de glamour estão fervilhando por aí, que te traga um vinho argentino e que divida seu colchão de solteiro no chão, definitivamente é uma garota bacana.