não é curioso que o ano de Marte tenha escolhido sexta, dia de Vênus, pra começar? quer dizer, é inevitável a cumplicidade que há entre o amor e a guerra então a senhora sentada ao meu lado me cutucou no braço de uma forma um tanto violenta até e descabidamente íntima, apontando pra casa da esquina que a lotação estava dobrando, me disse que havia nascido naquela casinha branca ali, ó, há muito mais tempo que você possa imaginar, minha filha.
olhei da casa pra ela muito rápido e meus olhos imediatamente posaram numa tatuagem em seu braço, quase na altura do ombro. se eu fosse anatomista ou melhor escritor, de certo que daria um nome melhor pra essa parte do corpo. também conseguiria descrever melhor a tatuagem do que isso: o busto de um homem de uns quarenta anos, cara redonda e certamente rosada quando ofegante, bigode grosso e cabelos pretos, com grandes entradas e uma camisa azul-roupa-envelhecida. os traços do desenho eram bem ruins, mas ele me atingiu em cheio no peito.
fingi interesse pela casa porque queria saber mais sobre a história por trás daquele desenho tão tosco. e a senhora mora aonde agora? moro aqui mesmo na Água Rasa, etc. sem mais cerimônia perguntei quem ele era, confirmando minhas suspeitas: seu marido, falecido há 20 anos. não perguntei seu nome, mas tinha cara de Antônio. meu pai foi Antônio também, conversei na minha cabeça. a tatuagem datava de 21 anos atrás. fiz um ano antes de sua morte. isso me fez querer chorar e por isso eu sorri. essa estratégia é batida, mas segura. ela era vaidosa: sombracelhas desenhadas a lápis, cabelo bem delineado e de um branco-prata muito regular, corte acima da orelha. anéis nos dedos e pulseiras nos pulsos. colares no pescoço e uma bolsa pouco séria. pele queimada do sol.
um senhor entrou de bengala e fui logo levantando pra dar-lhe o lugar quando, pra minha surpresa, ela me barrou. me deu um tranco impedindo minha saída, já que estava no assento do corredor. olhei pra ela num súbito espanto. tem tanta gente aqui! por que você tem de levantar? tem, mas... mas nada! fique aí! travamos uma pequena batalha até que me desvenciliei de sua espontaneidade. muito relutante me deixou levantar e quando me ajeitei em pé ao seu lado, me olhou séria e disse, gesticulando um tapa, que queria me bater. achei graça e a observei calada o resto da viagem. tentei lhe dizer que tinha muita gente em todo canto e que se cada um ficasse esperando pelo outro, o mundo ia estar exatamente como está hoje. mas na minha segunda palavra ela levou o dedo à boca e fez com que eu me calasse num shhh. quis lhe abraçar. ela resmungou com o senhor da bengala, exigindo que se encolhesse mais e que desencostasse seu pé do dela, ao que ele apenas respondeu com meu mesmo olhar indignado. não ousou abrir a boca. fique com Deus! tudo de bom pra senhora!
na véspera tinha comprado um vinho barato, da Serra Gaúcha de tampa de rosquear e tudo. depois da meia noite fiz um brinde porque aquele dia difícil tinha finalmente acabado. hoje acordei me perguntando não é curioso que o ano de Marte tenha escolhido sexta, dia de Vênus, pra começar? a intimidade entre as divindades da Guerra e do Amor transcende qualquer ressaca leve numa manhã indo pro trabalho.