metáforas sobre meia lua
largo mão de adivinhar o que ela faz ou o que diz.
mais ainda: de entender por que faz o que faz ou diz o que
diz.
por que pensa o que pensa e por que sente
o que sente e por que pergunta o que se pergunta, isso compreendo bem.
compreendo bem porque pensamos e sentimos
e perguntamos igual...
por
dentro apenas: a superfície nos divide.
choramos em coro, é verdade, mas não o mesmo choro.
enquanto visto-me pedindo socorro, ela despe-se para dançar.
e assim te vejo dois pontos
a dançar com a planta deduzida na
mesa de teu computador no ritmo maquinal do bater em teclas palavras aleatórias
que não poderiam ser mais precisas e com a imagem fixa que cultivo de retratos
espalhados pelos cantos de teu quarto e casa cujos alicerces rodeiam-te e
fazem-te dar voltas em teu pai-mãe-irmão desenhando no ar da convivência um
ciclo preenchido por cantos que escondem confidências do passado mais claras
que a luz do sol o teu avesso-ameno imagético enquanto esfrias o café em
xícaras de diâmetro quilométrico repletas de poças d’água que pulas em dias de
chuva ou de depressões secas no asfalto quente onde deitas em dias áridos à
espera da primeira colherada de areia sobre os lápis de muitas cores a enfeitar
prateleiras e a pintar teus olhos e a
borrar tuas lágrimas que secas com unhas
de mil esmaltes perolados presenteados pelo acaso o mesmo que te sopra os
cabelos e te abre a boca quando prestes a executar mais uma pirueta desse teu
ballet mediterrâneo de colombina a pular fogueira em brasa numa onda mística de
não concebo bem o que te faz não hesitar e quando vês já foi e que ao final de
cada ato apenas desmonta o figurino para bailar crônicas de gelo e fogo sob o
âmbar do Teatro de Artaud e os cliques de Sebastião Salgado com teu amor para o
blues ou cinco novos ritmos diários que ecoam no teu morder obsceno de lábios miados
selvagens de Nina Simone em um passado inexistente um presente longínquo ou futuro
inacessível não concebo bem qual novamente ou com quais pessoas cruzas na rua
ou evitas cruzar com certo ar bukowskiano entre as crianças tuas todas elas de
também não concebo quando e evitando ou chocando-te propositalmente contra objetos
pontiagudos como placas existenciais ou indivíduos que não são gente e esquivando
ou encarando finalmente a dor de tua existência em um universo próprio e
reverso em trajes que ultrajam meu luto diário expondo-te em telas sobre tripés
ou pregada nas paredes sob o foco dos holofotes cinematográficos de minha
memória a cena do ar faltando-te ao ler neste texto um despejo sem vírgulas enquanto
da plateia torço-peço por ti e espero-luto apenas
para que tua
existência não mais me doa.
