terça-feira, 22 de outubro de 2013

sutra do desassossego

mas permita que a mente tenha cautela, porque apesar de a carne ser maltratada, as circunstâncias da vida são bastante gloriosas.
Jack Kerouac

com lenços brancos sobre a mobília empoeirada mesmo lacrei portas e janelas comigo ainda dentro. desliguei água telefone gás e energia elétrica. liguei o ar e parti para dentro de mim o caminho só de ida. na mochila apenas uma esteira trabalhada com calma para sentar-me ao pé da montanha mágica da paciência e esperar só até que ela se mova.

caminhei à esquerda na avenida definitiva e sem parar nem para colher as flores que estavam pelo chão reverenciei com os olhos mal voltando a cabeça aos galhos secos que dançavam lentamente nas pontas das velhas árvores melancólicas ao ritmo do vento enquanto nas mais jovens e alegres folhas verdes ainda lutavam contra a gravidade. em vão. naqueles galhos desistentes reside o Buda da sabedoria - pensei. então tive pena ao pisar no outono implacável mas segui em frente e encharquei os pés com a umidade atemporal do vazio da estrada de flores mortas sem promessa de primavera.  

cheguei na estação do tempo com atraso para o chá da tarde e corri para pegar o vagão do infinito já em movimento. me encostei em pé à porta e ali permaneci ao lado de um velho profeta bêbado que na ponta escura dos dedos calejados desatava os nós de todas as verdades construídas sobre anos de sabedoria oleosa: primeiro os homens não têm compaixão - ele disse. nisso dois outros bem vestidos sentados à janela diante de uma mulher com curvas enormes e com uma sacola de desprezo ainda maior abriram os dentes amarelados pelo escárnio e riram com os olhos da superficialidade um riso diabólico enquanto mediam os trapos que cobriam a pele enrugada e grossa do homem que cheirava à ressaca de anos sem dar trégua aos porres de lúcida existência. segundo - ele continuou os homens não têm respeito. soluçou os risos alheios e calou-se num silêncio canino declarando falência múltipla de órgãos vitais como a solidariedade e a beleza infinita da bondade humana. ao encarar seus olhos vazios compreendi que naquele velho bêbado mal tolerado pelas três figuras sociais residia o Buda da resignação.

saltei na curva do destino apressadamente e na queda perdi o mapa da felicidade que carregava no bolso direito junto ao cartão de embarque desperdiçado na ida. cai na terra de joelhos e engoli seco a poeira que subiu do solo castigado pelo sol da tarde e nenhuma chuva. à minha frente uma subida íngreme de pedras escorregadias me levaria ao vale no pé de minha montanha. havia ossos espalhados pelo chão coberto de mágoa.

na estrada de pedras à céu aberto os fantasmas das árvores ancestrais inexistentes no plano físico do meu estupor me sopravam ao ouvido o mais absoluto nada. o canto cortado dos pássaros vinha de baixo dos estalidos dos gravetos  em que eu pisava e no firmamento  se via o perfeito vazio da mente azul-criança com nuvens esparsas de contentamento. o sol quente e inflexível bebeu até a última gota de líquido do meu corpo exausto e quando estendi as mãos prestes a não mais aguentar ouvi o murmúrio do riacho da eterna esperança que se estendia ao longe a apenas um passo à frente do horizonte. atravessei a pradaria fértil que renascia da água com o brilho da ilusão na rouquidão da alma.

a respiração das árvores materiais me soprou o caminho ao ouvido e senti que tudo estava bem. agora com o frescor verde da mata fechada caminhei a passos largos e fui perdendo as vestes humanas dos grilhões do apego que aos poucos libertou as grades da ignorância que por sua vez abriu a mão e deixou cair o chicote da raiva. me distrai com o som dos pertences ao retumbar no chão oco da fragilidade e quando dei por mim estava imediatamente ao pé da montanha aonde estendi minha esteira e plantei no coração uma semente de lótus que reguei só com a luz que invadia meus poros abertos.

fechei os olhos e quando ia começar a entrar no hemisfério da transparência me perdi no jogo de espelhos da tentativa vã de não pensar em nada. entendi que o mestre Caeiro era o Buda da incapacidade humana e a culpa herege  me tomou nos braços. encarei a montanha com olhos de desespero e pedi clemência. ao que ela não respondeu. fiquei bem entre o Cristo absoluto e o absoluto nada. não me decidi e com um golpe da passividade caí equilibrando a espinha sobre o muro que dividia o oriente e o ocidente: minhas duas consciências. abri os olhos para um céu só céu que ameaçou despencar sobre minha cabeça incerta até que finalmente rugiu e desabou e desabou numa chuva ácida de milhares de pensamentos sobre o que é ou não real sobre o porquê disso ou daquilo e sobre como não pensar em nada e sobre o fracasso da existência humana e sobre a vaidade de achar que há fracasso quando não há na verdade propósito algum. o muro se abriu sem se dividir e ajoelhei-me curvando rapidamente e implorando um perdão sínico sem culpa alguma.

para me castigar ou por mera coincidência - tanto faz! vi a natureza despertar feroz e milhares de pássaros em chama caíram do céu ateando fogo em toda terra enquanto todos os peixes secaram nas águas cristalinas da pureza da criança que se fecha no ciclo da própria inocência. após consumir absolutamente todo o vazio do nada que é o tudo absoluto a luz vermelha das chamas deu lugar às trevas e o fogo se apagou num breu mortal de gelar os ossos e as cinco serpentes do desespero amordaçaram meus sentidos me rendendo numa candência estática e certa de que a morte ia chegar. mas ela era ilusória como todo o resto.  debochada marcou o rebanho dos homens na testa com sua foice em brasa e desapareceu no ar deixando dois olhos de fogo sobre o medo que se tem de voar e da certeza de que a hora não falha.

ardi nas chamas do desespero em carne viva e como cinzas de um corpo castigado voei para a densa camada de enxofre que pairava no ar. entrei em combustão novamente e no momento seguinte estava no ventre da consciência desperta e rebentei no dente as correntes umbilicais do sofrimento da existência separada e me atirei inteira ao lago eterno da totalidade do que está e não está por vir pois o tempo é nada e a hora é sempre.