mas permita que
a mente tenha cautela, porque apesar de a carne ser maltratada, as
circunstâncias da vida são bastante gloriosas.
Jack Kerouac
com lenços brancos sobre a
mobília empoeirada mesmo lacrei portas e janelas comigo ainda dentro.
desliguei água telefone gás e energia elétrica. liguei o ar e parti para dentro
de mim o caminho só de ida. na mochila apenas uma esteira trabalhada com calma para
sentar-me ao pé da montanha mágica da paciência e esperar só até que ela se
mova.
caminhei à esquerda na avenida
definitiva e sem parar nem para colher as flores que estavam pelo chão reverenciei
com os olhos mal voltando a cabeça aos galhos secos que dançavam lentamente nas
pontas das velhas árvores melancólicas ao ritmo do vento enquanto nas mais jovens
e alegres folhas verdes ainda lutavam contra a gravidade. em vão. naqueles
galhos desistentes reside o Buda da sabedoria - pensei. então tive pena ao
pisar no outono implacável mas segui em frente e encharquei os pés com a
umidade atemporal do vazio da estrada de flores mortas sem promessa de
primavera.
cheguei na estação do tempo
com atraso para o chá da tarde e corri para pegar o vagão do infinito já em
movimento. me encostei em pé à porta e ali permaneci ao lado de um velho profeta
bêbado que na ponta escura dos dedos calejados desatava os nós de todas as
verdades construídas sobre anos de sabedoria oleosa: primeiro os
homens não têm compaixão - ele disse. nisso dois outros bem vestidos sentados à janela diante
de uma mulher com curvas enormes e com uma sacola de desprezo ainda maior
abriram os dentes amarelados pelo escárnio e riram com os olhos da
superficialidade um riso diabólico enquanto mediam os trapos que cobriam a pele
enrugada e grossa do homem que cheirava à ressaca de anos sem dar trégua aos porres de lúcida existência. segundo - ele continuou os homens não têm
respeito. soluçou os risos alheios e calou-se num silêncio canino declarando
falência múltipla de órgãos vitais como a solidariedade e a beleza infinita da bondade humana. ao encarar seus olhos vazios compreendi que naquele velho bêbado mal
tolerado pelas três figuras sociais residia o Buda da resignação.
saltei na curva do destino apressadamente e na queda perdi o mapa da felicidade que carregava no bolso direito junto ao cartão de embarque desperdiçado na ida. cai na terra de joelhos e
engoli seco a poeira que subiu do solo castigado pelo sol da tarde e nenhuma
chuva. à minha frente uma subida íngreme de pedras escorregadias me
levaria ao vale no pé de minha montanha. havia ossos espalhados pelo chão coberto
de mágoa.
na estrada de pedras à céu
aberto os fantasmas das árvores ancestrais inexistentes no plano físico do meu
estupor me sopravam ao ouvido o mais absoluto nada. o canto cortado dos pássaros vinha de baixo dos estalidos dos gravetos em que eu pisava e no firmamento
se via o perfeito vazio da mente azul-criança com nuvens esparsas de contentamento. o sol quente e inflexível bebeu
até a última gota de líquido do meu corpo exausto e quando estendi as mãos prestes
a não mais aguentar ouvi o murmúrio do riacho da eterna esperança que se
estendia ao longe a apenas um passo à frente do horizonte. atravessei a pradaria
fértil que renascia da água com o brilho da ilusão na rouquidão da alma.
a respiração das árvores materiais
me soprou o caminho ao ouvido e senti que tudo estava bem. agora com o frescor
verde da mata fechada caminhei a passos largos e fui perdendo as vestes humanas
dos grilhões do apego que aos poucos libertou as grades da ignorância que por
sua vez abriu a mão e deixou cair o chicote da raiva. me distrai com o som dos
pertences ao retumbar no chão oco da fragilidade e quando dei por mim estava imediatamente
ao pé da montanha aonde estendi minha esteira e plantei no coração uma semente
de lótus que reguei só com a luz que invadia meus poros abertos.
fechei os olhos e quando ia
começar a entrar no hemisfério da transparência me perdi no jogo de espelhos da
tentativa vã de não pensar em nada. entendi que o mestre Caeiro era o Buda da
incapacidade humana e a culpa herege me
tomou nos braços. encarei a montanha com olhos de desespero e pedi clemência.
ao que ela não respondeu. fiquei bem entre o Cristo absoluto e o absoluto nada.
não me decidi e com um golpe da passividade caí equilibrando a espinha sobre o
muro que dividia o oriente e o ocidente: minhas duas consciências. abri os
olhos para um céu só céu que ameaçou despencar sobre minha cabeça incerta até
que finalmente rugiu e desabou e desabou numa chuva ácida de milhares de
pensamentos sobre o que é ou não real sobre o porquê disso ou daquilo e sobre
como não pensar em nada e sobre o fracasso da existência humana e sobre a vaidade
de achar que há fracasso quando não há na verdade propósito algum. o muro se
abriu sem se dividir e ajoelhei-me curvando rapidamente e implorando um perdão
sínico sem culpa alguma.
para me castigar ou por mera
coincidência - tanto faz! vi a natureza despertar feroz e milhares de pássaros em chama
caíram do céu ateando fogo em toda terra enquanto todos os peixes secaram nas
águas cristalinas da pureza da criança que se fecha no ciclo da própria
inocência. após consumir absolutamente todo o vazio do nada que é o tudo
absoluto a luz vermelha das chamas deu lugar às trevas e o fogo se apagou num
breu mortal de gelar os ossos e as cinco serpentes do desespero amordaçaram
meus sentidos me rendendo numa candência estática e certa de que a morte ia chegar. mas ela era
ilusória como todo o resto. debochada marcou
o rebanho dos homens na testa com sua foice em brasa e desapareceu no ar
deixando dois olhos de fogo sobre o medo que se tem de voar e da certeza de que a
hora não falha.
ardi nas chamas do desespero em
carne viva e como cinzas de um corpo castigado voei para a densa camada de
enxofre que pairava no ar. entrei em combustão novamente e no momento seguinte
estava no ventre da consciência desperta e rebentei no dente as correntes
umbilicais do sofrimento da existência separada e me atirei inteira ao lago
eterno da totalidade do que está e não está por vir pois o tempo é nada e a
hora é sempre.