terça-feira, 1 de outubro de 2013

o dia em que o tempo parou

não se pode colocar o passado no bolso; preciso ter uma casa, arrumá-lo nela. só possuo meu corpo; um homem inteiramente sozinho, só com seu corpo, não pode reter as lembranças; elas passam através dele. não deveria me queixar: tudo o que quis foi ser livre.
Sartre
ele nasceu com medo de que o tempo passasse. medo de perder suas lembranças e de sumir das lembranças alheias.  medo de acabar sozinho. decidiu então anotar tudo o que fazia, para evitar a perda da memória. pois a memória é o que assegura a eternidade. tudo mesmo: ao acordar, antes mesmo de bocejar e se espreguiçar, esticava o braço mecanicamente em direção ao seu criado-mudo, desligava o despertador que tocava há muitos anos todos os dias pontualmente às 6h da manhã. tateava no escuro dos olhos fechados seu bloco de notas e iniciava 6h: acordo. não é que todos os seus registros fossem assim tão precisos, mas ele julgava que acordar era de extrema importância porque não gostava de pensar no tempo que perdia dormindo, já que enquanto isso não podia registrar quantas vezes havia se virado na cama, tossido, se havia roncado e demais informações de valor igualmente inestimável. às vezes, quando seu sono era interrompido por uma questão biológica pessoal e intransferível, essas coisas da natureza, ele se levantava num sobressalto, com caneta e papel a postos e ia anotando a ocorrência no trajeto. sentia uma satisfação indescritível quando acordava na manhã seguinte e só se lembrava da ida ao banheiro no momento em que conferia seus rabiscos noturnos. fora isso, os inconvenientes fisiológicos, nada mais lhe tirava o sono. dormia feito um bebê.
já desperto, após descrever minuciosamente a maneira como havia dobrado seus lençóis duas vezes ao meio e mais três vezes em três partes iguais, como havia esticado o forro sobre sua cama e apalpado seu travesseiro para tirar a silhueta de sua cabeça repousada, seguia descrevendo seu ritual matutino: de sua higiene bucal, passando por cada balançadinha e pela subsequente última gota da cueca, até seu desjejum. às vezes se distraia com a escrita e só voltava a si quando estava em cima da hora.
sonhava em se tornar escrivão. há anos tentava o cargo em concursos públicos, mas sua hora ainda não havia chegado. enquanto isso, trabalhava na central de segurança de uma galeria comercial qualquer. passava seus dias com os olhos colados nos vários monitores pequeninos que mostravam tudo o que os outros faziam. não anotava, apenas observava tudo atentamente. pausando a própria existência, pois trabalho é trabalho. e somente quando havia uma pausa no expediente, retornava a si. 15h30: levanto da cadeira, descanso os olhos, tomo um copo de água, vou ao banheiro, volto, sento-me outra vez e aproveito os 10 minutos restantes para reler as anotações da manhã. nunca foi muito comunicativo. falava pouco, mas, quando ainda jovem, costumava ouvir os outros com certa curiosidade, que foi perdendo ao longo dos anos, pois não era rápido o suficiente para anotar tudo o que lhe diziam, por mais experiente que fosse. então como não ia se lembrar de cada detalhe do que lhe diziam, achou que não valia a pena criar diálogos. fugia deles sempre que podia. também assim passou a fazer com as próprias ideias e reflexões. quando as imagens nos monitores mostravam algo fora do comum, apenas transcrevia que havia parado de observar as telas por alguns instantes para comunicar a quem fosse cabível que algo não está  de acordo com o protocolo.
ao fim do dia, antes de sair, olhava o relógio, que sempre marcava 18h. não sairia antes disso e cuidava muito para que não saísse depois. ao chegar em casa, pontualmente às 18h30, transcrevia seu trajeto e acrescentava sempre no final a mesma observação: na ida, fiz o mesmo caminho, só que ao contrário. como fazia sempre o mesmo caminho e não tinha tempo de descrevê-lo quando assumia seu posto, adotou essa técnica que lhe economizava um tempo precioso! aliás, todo o tempo lhe era precioso. não gostava de perder tempo cozinhando. optava sempre por comida de preparo rápido e fácil e enquanto seu jantar ainda não estava pronto, sentava encarando o relógio, subtraindo os minutos, esperando ansiosamente até que pudesse fazer algo mais importante. era um momento angustiante. enquanto esperava que o tempo de preparo passasse, soltava as rédeas do relógio de sua existência e cavalgava às cegas até que finalmente as pudesse tocar novamente. procurava manter a mente vazia e mal se mexia para que nada de valor acontecesse. era um alívio quando esses momentos acabavam. sua adrenalina subia e só baixava quando enlaçava o tempo com seu papel e caneta.
desde que aprendeu a escrever, anotava tudo. isso lhe poupou o trabalho de guardar as recordações. quando queria se lembrar de algo, voltar a algum momento precioso, como quem assiste a um filme,  bastava procurar a cena no menu da lembrança e dar play em determinado dia. sua mãe havia morrido antes que ele aprendesse a escrever o próprio nome. assim, ele não sabia de sua existência, não guardava uma só recordação materna. sua vida toda estava naqueles cadernos que guardava no quarto só de cadernos, cadernetas, blocos e diários. enfileirados e organizados em ordem cronológica. seu pai também já estava morto. na ocasião de sua morte, ele já era adolescente e escrevia muito bem. mesmo assim, também não guardava recordações dele: a dor da primeira perda lhe foi tão grande, que decidiu apagar seu pai de vez de sua vida. passou dias revirando cadernos e mais cadernos, apagando pescarias dominicais, rasgando conversas edificantes sobre o mundo lá fora, rasurando palavras duras ou sutis, até chegar à lembrança da morte. imediatamente ao tornar ininteligíveis os dizeres 15 de abril, 15h15: morre meu pai, sentiu seu peito aliviar-se da pressão que o oprimia. irreconheceu as lágrimas e seu porquê que, ainda úmidas, lhe escorriam pelo rosto e borravam a tinta do topo da pilha de papeis rasgados.
havia desenvolvido um antídoto contra a dor. a princípio, só queria controlar o tempo, mas havia descoberto a fórmula da felicidade: o esquecimento. assim, quando sua primeira namorada o deixou, não sofreu. e não voltou a se relacionar novamente porque havia se esquecido do que era e para que servia uma namorada. e assim foi feito com os amigos que ao longo da vida tomaram rumos diferentes e deixaram saudades irremediáveis. esqueceu-se de seus brinquedos preferidos, dos lugares, dos sons, das cores, dos cheiros da infância e de tudo o que lhe trazia a sensação de que os melhores dias de sua vida haviam deixado de existir. era feliz. nada lhe faltava, não conhecia a dor. ao se deitar, sua única preocupação era verificar se o relógio estaria de pé às 6h da manhã seguinte e se sua caderneta estaria a postos, ao lado de sua caneta, para que o despertar de outro dia não passasse desapercebido.

certa vez esqueceu o caminho do trabalho, então resolveu olhar as anotações que havia feito no dia anterior. aos poucos, coisas igualmente rotineiras e recentes foram desaparecendo de sua memória a curto prazo. acordava no meio da noite e não se lembrava aonde ficava o banheiro ou, quando ia até lá, não se lembrava o que vinha depois. nestes casos, sempre recorria ao seu caderno para ver qual seria o próximo passo. ele não tinha espelhos em casa. assim, seus dias foram ficando cada vez mais parecidos entre si. a diferença entre o que veio antes, o que estava acontecendo e o que viria depois começou a diminuir gradativamente e tudo passou a ser exatamente igual. ele não teve a chance de perceber ou de se lembrar de que havia, finalmente!, completado sua tarefa e conseguido congelar o tempo. na manhã de hoje o relógio não parou de despertar. as anotações não foram feitas e ele viveu para sempre no dia passado.