Não era medo do futuro
eminente. Era medo de não deixar o passado para trás. Havia descoberto
recentemente o poder da cura da alma que residia em seus pensamentos. Buscara
tanto mundo afora e em tantas outras pessoas, mas finalmente descobrira que a
paz de que precisava estava em seu coração. Estava viva. Queria permanecer viva.
Não era mais o amanhã que temia. Era o ontem. E se o Universo não tivesse a
memória curta como as pessoas? E se ele viesse, na manhã seguinte, atender ao
seu pedido de morte? Não era de morte. Era de sumir. De acordar em uma
realidade diversa. Uma realidade na qual ela cumpria todos os prazos sem deixar
de fazer o que gostava, mantendo assim sua mente saudável e seu espírito jovem.
Bater papo, frequentar lugares com música, conhecer gente, entender livros
complexos, resolver problemas matemáticos só pelo desafio, conhecer gente...
sim! Conhecer gente! Por mais assustador que fosse conhecer gente nova, ela
adorava o poder de encantamento que tinha sobre os outros. Fazia-lhe muito bem
a adoração que lhe tinham os amigos mais antigos e os novos, mesmo que
escondesse atrás de sua falsa modéstia o sentimento vaidoso que lhe invadia
quando alguém lhe elogiava o carisma. Um carisma muito autêntico, por assim
dizer. Não era bem o tipo de pessoa doce. Muitas vezes rude. Mas era autêntica.
Decidiu raspar o cabelo do lado. Isso! Rasparia o cabelo do lado! Não queria
mais sumir e acordar em outra realidade. Pois na verdade, descobriu que o dom
de manipular a realidade estava em suas mãos. Acabara de inventar uma outra e
finalmente, finalmente, não queria mais morrer de si.