se a música fosse um bicho dentro de mim, ela seria um urso. e ela seria um urso porque hiberna por longos, desconcertantes e áridos hiatos. e enquanto ela hiberna, sonha com a realidade que eu vivo aqui fora, onde essa criatura selvagem domestica-se por essa ou aquela memória. e esse sono se alimenta disso que é onírico de traz pra frente. até que então, de tempos em tempos, ela desperta faminta, ávida por atenção, urgente em me alertar sobre tudo o que eu deixei cair no vão entre essa cidade que se construiu lá fora e essa mata selvagem aqui dentro do peito. se não dou passagem, ela ruge arrancando dos batentes as porteiras e exorcizando toda dor e todo medo e fincando as unhas na coragem necessária para agir diante do medo que ainda restar. sua maior lição talvez seja permitir enxergar o que é mérito e o que é monstro.
a poesia seria uma loba, talvez. mas isso fica pra mais tarde.