quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Diane di Prima: Cinco Poemas da Loba

ela é o vento…”

ela é o vento que você nunca deixa para trás
gato negro que você matou num lote vazio, ela é
o cheiro das ervas de verão, aquela que espreita
pelos armários abertos da infância, ela tosse
na sala ao lado, pios, ninhos em seus cabelos
ela é íncubo
                        face na janela
                                                        ela é
harpia na sua saída de emergência, estatueta de mármore
talhada na lareira.
                                            Ela é cornucópia
que lamenta na noite, abraço mortal
não há como escapar, olhar negro cristalino
de garotas loucas entoando cânticos por trás da engrenagem, ela é
o silvo em suas despedidas.
Grão negro no verde jade, som
do silêncios o koto¹, ela é
tapeçaria incinerada
                          em seu cérebro, o manto flamejante
de plumas te carrega
                                     para montanhas
enquanto você corre em chamas
                                                         até
                                                            o mar negro

¹Koto é um instrumento oriental, semelhante à cítara

Algumas Mentiras Sobre A Loba 

que ela é eterna, que ela canta
que ela é a estrela nascente, que ela coleciona cristais
que ela pode ser confundida com Ísis
que ela é o fim
que ela sabe seu nome, que ela nada
no céu púrpura, que seus dedos são pálidos & fortes
que ela é preta, que ela é branca
que você sempre sabe quem ela é
quando ela aparece
que ela avança pelas ameias², que ela filtra
como pedras no mar
que você pode ouvi-la se aproximar, que seu pés cravejados
percorrem qualquer medida particular
que há qualquer coisa sobre ela
que não pode ser dita
que ela saboreia lápides, rola
escadas de mármore abaixo
que ela é terrena apenas, que ela não é terrena
que você pode lembrar-se a primeira vez que a encontrou
que ela está sempre com você
que ela pode ser vista sem graça
que há algo a dizer sobre ela
que não seja verdade

² Ameias (do latim "mina[s]"0, em arquitetura militar, é a abertura no parapeito de muralhas, castelo ou fortaleza, por onde os defensores avistavam o inimigo. 

LILITH DAS ESTRELAS

porque há outra Lilith, não feita para a terra
sobre quem dizem / que quando ela é vista por homens
é um vapor / uma praga / uma cacofonia
de sinos únicos / terríveis & estranhos, eles perseguem
sua sombra insubstancial por este mundo
& o próximo. Ela é, de fato, o arquétipo
fogo-fátuo³
 das estrelas 
fogo efêmero
 do vácuo
fogo cósmico corrente que nos atrai
 para longe
das esferas celestiais, nossa casa
para vagar, para sempre, entre quasares
da adversidade ao
 Som dos Cristais Harmônicos
templo-flor do abismo 
       
                 torniquete
                  onde está a ferida
                 que espera
                 que excede proporções.

Navegue-Esta-Guinada-A-Um-Ângulo 

Raposa Branca que Salta sobre Túmulos 

³ Fogo-fátuo ("ignis fatuus" em latim), também chamado de fogo tolo, fogo corredor ou João-galafoice, é uma luz azulada que pode ser avistada em pântanos, brejos, etc., dada a inflamação instântanea do gás dos pântanos (fosfina), resultante da decomposição dos seres vivos, como plantas e animais típicos do ambiente. 

A LOBA ANSEIA PELA MEMÓRIA NO BARDO 

Digamos que as ruas estivessem tomadas

                 por restos de comida
folhas secas, destroços de plástico & papel 

Lembremos das prostitutas meio loucas
 
                  que andaram sobre elas

Negros olhos como Egito: al-Khem
4
          a mulher

daquela noite?

                                           Recordemos 
as luas minguantes daquela era 
seu desespero
  
                a desesperança do vento 

que voou do Centro Morto para seu
 
               destino em nossos corações

O que guardaremos nas duras conchas
 
                      das nossas mãos 

as garras trincadas resistiram suplicantes

                    seguraram firme
para manter o que escorreu como areia? 


Possamos nomear os esqueletos 
avestruz & paquiderme

Quem vai lembrar a frieza desse tempo? 
Quem vai recordar isso, mais tarde? 

4 El-Khem é o nome original da região hoje conhecida como Egito. 

Eu sou uma sombra…”

Eu sou uma sobra cruzando gelo 
Eu sou faca enferrujando na água 
Eu sou pereira mordida pela geada
Eu sustento a montanha com minha mão 

Meus pés estão cortados por vidro 
Eu ando na floresta tempestuosa após anoitecer 

Eu estou envolta em uma nuvem dourada 

Eu assobio entre meus dentes 
Eu perco meu chapéu 

Meus olhos jogados às águias & minha mandíbula 
presa por um fio de prata
Eu queimei muitas vezes e meus ossos são sopa 

Eu sou estátua de pedra gigante num penhasco 

Eu sou louca feito uma nevasca 

Eu encaro por frestas de armários quebrados

Poemas originais aqui