se vais ouvir o que quero, peço então que tenhas paciência. é um tanto complicado, à princípio, mas ao final entenderás sem grandes dificuldades. senta-te. estás confortável? vou fazer-nos um chá. desculpe, tenho essa mania incorrigível de ser do signo de câncer: estou sempre entre a cozinha e o quarto. só venho na sala mesmo, assim, quando tenho visita. gosto de por a mesa com calma. de fazer minha especialidade ou experimentar nova receita. gosto quando gostam. também gosto... gosto de ti.
sabes, a primeira coisa que quero é que, de vez em quando, nos sentemos à mesa. pode ser quando vieres para me dar aquele abraço. aquele um, o que podias me dar. e para não perderes viagem, já vieste mesmo, fica para o almoço. já aproveitemos e falemos da vida dos outros e podemos ainda rir de bobagens sem fim. só enquanto não dá o tempo de cozimento. nada mais justo então, que nesse momento, abramos uma garrafa de algo novo para beber. ou algo velho. não sejamos exigentes. não sejamos caretas. bebamos! troquemos receitas. e já vou logo avisando: pode acontecer de eu querer presentear-te com algum pote de doce caseiro. irei preparar-te para a viagem de volta sempre.
quero também que deixemos falar o coração. dar voz ao sentimento. e já adianto: esse vai variar de acordo com o momento. como acontece com o prato do dia. só que, sem repetição. tudo vai depender da música que estiver tocando. veja, se começar a tocar um tango de calçada enquanto, coincidentemente, estivermos passando por uma, dancemos conforme a música. podemos fingir elegância para disfarçar a embriaguez do momento. poderemos sempre fingir com moderação. se tocar dessas mpbs modernas de que tanto gostas e ao acaso estejamos no quarto, podemos abraçar-nos e beijar-nos de mansinho, e segredar palavras de carinho. mas se for flamenco ou quem sabe um rock com guitarras sensuais, não vai ter escapatória, se estivermos na sala, terá de ser na sala. se for um disco de blues, aí depende. pode virar afago, pode virar fogueira. o importante é que não calemos nossos corpos aos gritos de urgência. ah, e não te preocupes: se for valsa e estivermos na igreja, corramos o mais rápido que puderem aguentar nossas pernas.
façamos então, amor sem compromisso. não amor o ato de amar-nos apenas. também amor o substantivo.