no desespero me dei conta que de todos meus amigos
e olha que não são poucos os que são amigos amigos mesmo
não tem um para o qual eu pediria conselhos e que pudesse ser
ao menos por um instante
parâmetro pra nada
pra nada e pra qualquer coisa mesmo
desde que roupa usar em tal ocasião
passando por lances amorosos
ou até
que marca de xampu é boa pra cachos
que ração dar pro cachorro pra fazer o pêlo parar de cair
que vinho vai com tal prato (porque sempre vai o que mal cabe no bolso)
como lavar roupa sem danificar
como lidar com a porra da vida
não tem
um
não tem um filho da puta
que sirva pra coisa alguma
que não seja um fodido
são todos uns fodidos
uns malditos abençoados
uns benditos fodidos
não tem um que não esteja pendurado na caixa
ou devendo muito no banco
ou com o bolso cheio e solitário feito cachorro de rua
tendo que lamber as próprias feridas
ou morrendo lentamente e sentindo cada momento
ou trabalhando demais
ou bebendo demais
ou fumando demais
e comendo de menos
ou sem tempo pra nada
ou muito longe de casa
ou sangrando muito
ou amando muito
ou apaixonado pra caralho
por um vício
por uma mina
por um cara
por ambos
pela droga da vida
por uma pintura
por um solo de guitarra
por um novo escritor
por um velho poema
por uma bala de revólver
se parar dá pra ouvi-los gritar
cuspindo fogo e com estilhaços na garganta
numa prece furiosa
numa febre viva
vai ouvi-los gritar pra serem deixados em paz
pra não serem perturbados
pra não servirem de exemplo
pra não serem acordados antes das dez
pra não serem perturbados
pra não serem perturbados
pra não serem perturbados porra
porque estão todos fodidos em busca da paz
em busca da ordem
em busca de um deus
do próprio deus
daquele deus interior que faça
a vida florescer do caos
amém