terça-feira, 10 de março de 2015

soledad

fui até a geladeira buscar outro copo de vinho e no meio do caminho tropecei numa epifania e dei por mim só quando tava de frente pra pia, encarando mais um copo sujo com um puta estranhamento. 

acontece que de repente eu me dei conta de que a solidão é esse dia longo, só com promessa de chuva que a previsão do tempo se esqueceu de anunciar porque o preço do silêncio ia subir fatal feito o dólar e que mesmo assim os homens de Wall Street continuariam a amarrar suas gravatas caras nas janelinhas dos banheiros dos cubículos de menos de um metro quadrado em cidades da Ásia e chutar os banquinhos e fracassar porque os pés iam acabar tocando em alguma outra coisa ou porque a barra de ferro ia estourar ou porque não souberam dar o nó de acordo com a ocasião. 

a solidão é o Jim Morrison na banheira de um hotel em Paris. o Kurt Cobain numa garagem em Seattle e o eletricista que o encontrou dois dias depois. é o Ian Curtis ouvindo pra sempre Iggy Pop na cozinha. é um solo do Jimmy Page na noite que John Bonham se afogou no próprio vômito. Elvis Presley morrendo gordo e debilitado e decadente. John Lennon alvejado por um fã. Janis Joplin de coração partido rasgando a garganta com um blues. James Dean num acidente de carro chamando por sua mãe ou encarando Deus. Charles Bukowski acariciando um gato na última página de um romance que era pra ser sobre mulheres. Jack Kerouac andando no deserto com sandálias de couro de pneu. o Van Gogh sem dinheiro nem pra um pernoite e cortando a orelha por amor a uma puta. Virginia Woolf catando pedras na beira do lago pra encher os bolsos do mergulho eterno. Paul Verlaine atirando em Rimbaud. Pessoa morrendo de modernidade, de angústia, de ópio e de cirrose. é o Dostoiévski na estante ao lado do catálogo do convênio médico e o livro de receitas que veio com a panela elétrica. Allen Ginsberg no hospício onde morreu sua mãe. o grande palhaço Pagliacci que está na cidade e vai ao médico contar sua última piada. é a manhã seguinte e a odisseia até o banheiro tentando desviar da ressaca e das latas de cerveja e esbarrando em garrafas de vinho e pisando nas bitucas amassadas espalhadas por todo o chão do abismo que pode ser um apartamento ainda que de um metro quadrado. 

lavei o copo e o que tinha na garrafa não chegou nem na metade. a solidão é o lamento dessa garrafa vazia. me sentei na janela e fui observar a vida. passou um ônibus e muitos carros e o cobrador cochilando no horário de pico porque agora todo mundo usa cartão e fones de ouvido. a solidão é a senhora que não tem mais força pra girar a catraca e que demora dias pra subir dois degraus da escada.  

a solidão é essa cidade e as manifestações em prol da redução da maioridade penal. a marcha pela volta da ditadura. é o bêbado deitado no acostamento e o guarda furioso que o acorda com golpes de borracha. gente se acotovelando na fila do gadget de última geração. salas de bate-papo na internet e o cara que se masturba na webcam. 

a solidão é tudo isso que não faz sentido. é tudo isso que não tem como nem por que. é o bater das teclas no silêncio da segunda à noite. é sair da casa dos pais e ter que deixar seu cachorro. é beber só no domingo à noite. é acordar de ressaca e ter que trabalhar. conhecer uma garota incrível e ela ter um namorado. é o cara que mesmo sendo o maior babaca da história sempre estraga todas as suas chances com ela porque ela sempre aceita ele de volta. é comprar um pacote de pão de forma que vai durar a semana toda. guardar a comida na geladeira. requentar na janta. olhar o celular de minuto a minuto e nunca receber aquele telefonema de volta. é tocar piano e não ter plateia. rabiscar o trecho do livro e não ter pra quem mostrar. escrever uma carta sem remetente. terminar um poema sem musa. interromper o filme porque a necessidade de um abraço é aterradora. é não haver a quem ou ao que se agarrar. é se encolher na cama de madrugada. cozinhar por horas e sentar à mesa sem companhia. é a voz do David Gilmour na sua cabeça.

we're just two lost souls
swimming in a fish bowl
year after year
running over the same old ground
what have we found?
the same old fears
wish you were here 

é o cara que numa roda de samba pede pra tocar Raul. Dr. Spock doente do pulmão. 

a solidão é os destroços de uma cadeira no meio do nada.