você
cambaleou um pouco pra subir no banco da praça, que antigamente era
chamada praça dos gays porque eles se reuniam lá
aos domingos, segundo me disse, acelerando o ritmo da voz e um tanto
ofegante conforme apertávamos o passo até quase correr pra cruzar a
rua sem soltar as mãos no farol vermelho tentando evitar os carros
que investiam contra a gente assim que saímos do posto de gasolina
cada um com uma garrafa de Bud na mão.
do
seu palanque improvisado, encarando a multidão unitária que eu
formava lá embaixo, você discursou veemente contra a
arbitrariedade linguística proveniente da limitação que nos
impuseram quando nos condicionaram a definir convencionalmente aquilo
que a gente vivia e sentia através de um vazio e abstrato 'eu te
amo'!
e
com um sorriso infantil que batia de frente com teus quase vinte e
cinco anos completos agravados pela maturidade que a maternidade e o
matrimônio te impuseram, você defendeu a liberdade de trocar aquele
jargão piegas e decretou que agora se declararia pra mim dizendo
algo como eu te The Doors! e entrando no teu delírio
eu abri os braços pra dizer que eu te vinho e você me fotografia e
eu te música e você me escrita e eu te blues e você me uísque e eu... e eu te você! e foi aí que você me ameaçou dizendo que
quebrava a garrafa já vazia na minha cabeça se no meio da minha
euforia eu soltasse um eu te futebol! e então rimos
sonoramente...
uns
moleques andavam de skate na pista de frente pro que se
tornaria nosso banco, nos ignorando completamente,
exatamente como ignorávamos as pessoas apressadas na avenida
principal, ao lado da agora também nossa praça,
correndo e lutando pra pegar o ônibus lotado das seis da tarde,
naquela terça-feira bem fria. e a gente também tinha a vida lá de
fora pra pensar e horário pra cumprir e teu filho pra cuidar e tudo
o que dividíamos só em palavras sobre nossas vidas que nos dividiam
e quando essas vidas não puderam mais esperar, demos as mãos e só
nos olhamos resignados e fomos indo cada um pro seu lado, juntos
até quando fosse possível, agora mudos, na contramão de tudo,
enquanto o sol se punha criando aquele efeito melancólico de fim de
tarde tão clichê e piegas e verdadeiro quanto os eu te
amos que se troca por aí.
quando
me despedi de você no metrô com aquele beijo que trocamos no canto
da boca e que passou raspando pelo canto dos olhos dos transeuntes
alheios aos nossos passos, por bem pouco não fomos pegos pela
patrulha monogâmica da heterossociedade e foi nesse breve instante
de alívio que interrompendo nossa dança você se virou com pressa
pra subir na pirua que já tava saindo e eu corri pra conseguir pegar
o próximo trem e não atrasar pro trabalho mais que dez minutos. e
da gente então ficou só uma melodia ecoando na minha cabeça e um
refrão começou a crescer me dizendo man, I'm beat! tell
you, she beats me!
e
essa música foi crescendo como uma batida de bbop dentro
do meu peito e foi me ensurdecendo pra todo resto. eu ia na direção
contrária e por isso no vagão tinha banco pra sentar e na janela
vidro pra encostar a cabeça e naquele céu de início da noite eu
tinha sonho e lembrança pra dividir com você e só com você, como
o nosso segredo. batido, quebrado, pregado, com olhos fixos e
sentindo uma benção marginal feito alguém que acabou de cruzar o
pais de carona com uns trapos na mochila e apenas uns trocados no
bolso. eu então concluí que a minha maneira absoluta de me declarar
só podia ser I beat you... cause tell you, girl,
you beat me.
